Toda mulher com menstruação intensa precisa de cirurgia?
Você troca o absorvente várias vezes ao dia, perde coágulos grandes ou já manchou a roupa ou o lençol? Talvez alguém tenha dito que "o jeito é tirar o útero". É normal sentir medo diante dessa ideia.
A boa notícia: a maioria das mulheres não precisa de cirurgia. Hoje, o tratamento de menstruação intensa começa, na grande parte dos casos, com remédios ou com o DIU hormonal [1][3]. A cirurgia fica para situações específicas.
Neste artigo, você vai entender o que causa a menstruação intensa, quais são os tratamentos e quando a cirurgia realmente faz sentido.
O que é considerado menstruação intensa?
Menstruação intensa é aquela que atrapalha a sua vida: no trabalho, no sono, no lazer ou na vida a dois [2][4]. Não existe um número mágico de absorventes. O que conta é o impacto no seu dia a dia.
Alguns sinais comuns são:
- Precisar trocar o absorvente com muita frequência, inclusive de madrugada;
- Usar absorvente e fralda ou dois absorventes ao mesmo tempo;
- Perder coágulos (pedaços de sangue mais grossos);
- Menstruação que dura 8 dias ou mais [1][2];
- Cansaço, fraqueza ou palidez, que podem indicar anemia (falta de ferro no sangue).
Você não está sozinha. Cerca de 3 em cada 10 mulheres brasileiras têm algum tipo de sangramento uterino anormal, que inclui a menstruação intensa [1].
O que pode causar menstruação muito forte?
Nós utilizamos uma classificação internacional para organizar as causas, criada pela Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) [2]. Em palavras simples, as causas se dividem em dois grupos.
Causas que aparecem nos exames de imagem
- Pólipo uterino: uma "bolinha" de tecido que cresce dentro do útero.
- Mioma (também chamado de fibroma ou leiomioma): é como um nódulo de músculo que cresce na parede do útero. Na grande maioria das vezes, não é câncer.
- Adenomiose: quando a camada de dentro do útero entra no músculo da parede, deixando o útero maior e mais dolorido.
- Lesões que podem virar câncer ou câncer: são menos comuns, mas precisam ser descartadas, principalmente depois dos 45 anos ou em quem tem fatores de risco [1].
Causas que não aparecem na imagem
- Alterações da ovulação, comuns na adolescência, perto da menopausa ou na síndrome dos ovários policísticos.
- Problemas de coagulação do sangue, que podem ser herdados da família.
- Alterações no endométrio, a camada que reveste o útero por dentro e descama na menstruação.
- Uso de alguns remédios, como os que "afinam" o sangue.
Saber a causa é o primeiro passo. Cada causa tem um tratamento diferente, e é por isso que a consulta é tão importante.
Como é feito o diagnóstico?
A avaliação começa com uma boa conversa e o exame ginecológico. Depois, o médico pode pedir [1]:
- Teste de gravidez, para descartar essa possibilidade;
- Hemograma, um exame de sangue que mostra se há anemia;
- Ultrassom transvaginal, feito com um aparelho fino colocado no canal vaginal, que mostra miomas, pólipos e adenomiose;
- Histeroscopia (exame em que uma câmera fina entra pelo canal vaginal para ver o útero por dentro, sem cortes), quando há suspeita de lesão dentro do útero;
- Biópsia do endométrio, quando é preciso analisar um pedacinho da camada interna do útero.
Nem toda mulher precisa de todos esses exames. Eles são escolhidos de acordo com a sua idade, seus sintomas e seu histórico.
Toda menstruação intensa precisa de cirurgia?
Não. A FEBRASGO, que reúne os ginecologistas do Brasil, orienta que o primeiro tratamento, em geral, é com remédios [1]. A sociedade americana de ginecologistas (ACOG) segue a mesma linha [3].
A cirurgia costuma ser indicada quando [1]:
- Os remédios não funcionaram bem;
- A mulher não pode usar os remédios por algum motivo de saúde;
- Existe uma causa que se resolve melhor com cirurgia, como um pólipo ou certos miomas;
- O sangramento é tão forte que coloca a saúde em risco imediato.
Quais são os tratamentos sem cirurgia?
O tratamento de menstruação intensa sem cirurgia tem várias opções. A escolha depende da causa, da sua idade, do desejo de engravidar e das suas preferências.
- DIU hormonal (com levonorgestrel): um pequeno dispositivo colocado dentro do útero que libera um hormônio aos poucos. Uma grande revisão de estudos da Cochrane apontou o DIU hormonal como a opção sem cirurgia que mais reduz o sangramento [4]. Ele também diminui mais o sangramento do que os comprimidos [5].
- Ácido tranexâmico: um remédio sem hormônio, usado só nos dias da menstruação. Ele ajuda o sangue a coagular e reduz a perda de sangue em cerca de 40% a 50% [6].
- Pílula anticoncepcional: regula o ciclo e costuma deixar a menstruação mais leve [1].
- Progesterona em comprimidos ou injeção: útil principalmente quando a causa é a falta de ovulação [1][3].
- Anti-inflamatórios: podem diminuir um pouco o sangramento e a cólica forte [4].
- Reposição de ferro, quando há anemia.
Importante: nenhum desses remédios deve ser usado por conta própria. Alguns não são indicados para quem tem risco de trombose (coágulos nas veias), pressão alta ou enxaqueca com aura, por exemplo. Só a consulta individual define o que é seguro para você.
O DIU hormonal pode evitar a retirada do útero?
Em muitos casos, sim. Estudos que compararam o DIU hormonal com a retirada do útero mostraram que, depois de 5 anos, a satisfação e a qualidade de vida foram parecidas nos dois grupos [5].
Por outro lado, algumas mulheres com DIU acabaram precisando de cirurgia mais tarde, porque o sangramento não melhorou o suficiente [5]. Por isso, o acompanhamento com o ginecologista é essencial.
Quando a cirurgia é indicada, quais são as opções?
Quando a cirurgia é necessária, muitas vezes ela pode ser feita sem cortes grandes na barriga. São as cirurgias minimamente invasivas.
Histeroscopia cirúrgica
É feita pelo canal vaginal, com uma câmera fina e pequenos instrumentos. Não deixa cicatriz na pele. Com ela, é possível [1]:
- Retirar pólipos;
- Retirar miomas que crescem para dentro do útero;
- Fazer a ablação do endométrio, que "queima" ou remove a camada interna do útero para diminuir a menstruação.
A ablação é uma alternativa à retirada do útero em casos selecionados [1][4]. Mas ela não é indicada para quem ainda quer engravidar [3].
Laparoscopia
É uma cirurgia feita por pequenos furos na barriga, com uma câmera. Ela permite retirar miomas da parede do útero ou, quando necessário, retirar o útero (histerectomia).
Em geral, a laparoscopia traz menos dor, recuperação mais rápida e cicatrizes menores do que a cirurgia aberta. Ainda assim, cada caso tem riscos e benefícios que precisam ser conversados com calma.
E a retirada do útero?
A histerectomia (retirada do útero) é o tratamento que mais reduz o sangramento, porque a menstruação deixa de existir [4]. Na revisão Cochrane, a histerectomia por técnica minimamente invasiva aumentou bastante a satisfação das pacientes [4].
Mas é uma cirurgia definitiva. Ela costuma ser reservada para quem já não deseja engravidar e não melhorou com outros tratamentos, ou para quem tem miomas grandes ou adenomiose importante [1][3].
Quando procurar um ginecologista?
Agende uma consulta se você tiver:
- Menstruação que atrapalha seu trabalho, sono ou vida social;
- Menstruação que dura 8 dias ou mais;
- Coágulos grandes com frequência;
- Cansaço, falta de ar, tontura ou palidez;
- Sangramento fora da menstruação ou depois da relação sexual;
- Cólica forte que piorou com o tempo;
- Qualquer sangramento depois da menopausa.
Procure um pronto-socorro imediatamente se o sangramento encharcar vários absorventes em poucas horas, se você sentir desmaio ou tontura forte, ou se estiver grávida ou com suspeita de gravidez.
Como é a avaliação no consultório do Dr. Murillo Santos?
Na consulta, eu ouço a sua história com atenção e faço exame ginecológico. Em seguida, solicita os exames necessários para descobrir a causa do sangramento.
Com o diagnóstico em mãos, vocês conversam sobre todas as opções de tratamento de menstruação intensa, das mais simples às cirúrgicas. A decisão é tomada em conjunto, levando em conta sua saúde, seu desejo de engravidar e sua rotina.
Quando há indicação de cirurgia, podemos planejar, em alguns casos, a endoscopia ginecológica, que inclui histeroscopia e laparoscopia. Essas técnicas permitem tratar muitos casos com menos agressão ao corpo.
Perguntas frequentes
Menstruação intensa é normal?
Não deve ser vista como normal quando atrapalha a sua vida. Muitas mulheres convivem com o problema por anos achando que "é assim mesmo". Existe tratamento, e o primeiro passo é descobrir a causa.
Menstruação intensa pode causar anemia?
Sim. A perda de sangue todo mês pode diminuir o ferro do corpo. Isso causa cansaço, fraqueza, queda de cabelo e falta de ar. Um exame de sangue simples mostra se há anemia.
Qual o tratamento para menstruação intensa?
Depende da causa. Na maioria das vezes, começa com remédios ou com o DIU hormonal. A cirurgia fica para casos em que esses tratamentos não funcionam ou não são indicados.
Mioma sempre precisa de cirurgia?
Não. Muitos miomas não causam sintomas e só precisam de acompanhamento. Quando causam sangramento, o tratamento depende do tamanho, da posição do mioma e do desejo de engravidar.
O DIU hormonal engorda ou faz mal?
O DIU hormonal libera uma dose baixa de hormônio, que age principalmente dentro do útero. Algumas mulheres têm efeitos como escapes de sangue nos primeiros meses. Seu médico vai avaliar se ele é adequado para você.
Quem tem menstruação intensa pode engravidar?
Na maioria dos casos, sim. Existem tratamentos que preservam o útero e a fertilidade. Por isso, conte ao seu médico se você deseja ter filhos.
Ácido tranexâmico pode ser tomado por conta própria?
Não. Ele exige receita e avaliação médica, porque não é indicado para algumas pessoas. Além disso, tomar remédio sem saber a causa do sangramento pode atrasar um diagnóstico importante.
Conclusão
Menstruação intensa é comum, mas não é algo com que você precise conviver. E, na maioria das vezes, o tratamento não envolve cirurgia. Quando ela é necessária, existem técnicas minimamente invasivas que podem facilitar a recuperação.
O mais importante é descobrir a causa e escolher, com o seu médico, o tratamento mais adequado para você.
Se você tem menstruação intensa ou algum dos sinais deste artigo, agende uma avaliação.
*Dr. Murillo Santos — Ginecologia e Obstetrícia | CRM-PR 43.086 | RQE 32.072 e 34.548*
*Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.*
Referências
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina. Sangramento uterino anormal. Protocolo FEBRASGO de Ginecologia nº 80. Femina. 2026;54(3):227-35. Disponível em: https://femina.org.br/wp-content/uploads/sites/12/articles_xml/0100-7254-femina-54-3-0227/0100-7254-femina-54-3-0227.pdf
- Munro MG, Critchley HOD, Fraser IS; FIGO Menstrual Disorders Committee. The two FIGO systems for normal and abnormal uterine bleeding symptoms and classification of causes of abnormal uterine bleeding in the reproductive years: 2018 revisions. Int J Gynaecol Obstet. 2018;143(3):393-408 [VERIFICAR páginas]. doi:10.1002/ijgo.12666
- American College of Obstetricians and Gynecologists. Practice Bulletin No. 136: Management of abnormal uterine bleeding associated with ovulatory dysfunction. Obstet Gynecol. 2013;122(1):176-85. [VERIFICAR se segue vigente/reafirmado]
- Bofill Rodriguez M, Dias S, Jordan V, Lethaby A, Lensen SF, Wise MR, et al. Interventions for heavy menstrual bleeding; overview of Cochrane reviews and network meta-analysis. Cochrane Database Syst Rev. 2022;5(5):CD013180. doi:10.1002/14651858.CD013180.pub2. PMID: 35638592
- Bofill Rodriguez M, Lethaby A, Jordan V. Progestogen-releasing intrauterine systems for heavy menstrual bleeding. Cochrane Database Syst Rev. 2020;6(6):CD002126. doi:10.1002/14651858.CD002126.pub4
- Bryant-Smith AC, Lethaby A, Farquhar C, Hickey M. Antifibrinolytics for heavy menstrual bleeding. Cochrane Database Syst Rev. 2018;4(4):CD000249. doi:10.1002/14651858.CD000249.pub2
