Cirurgia por vídeo: o que esperar antes, durante e depois
Ouvir a palavra "cirurgia" costuma gerar medo. Ele aumenta quando você precisa operar o útero, os ovários ou as trompas. Muitas mulheres chegam ao consultório com as mesmas dúvidas: vai doer? Quanto tempo fico parada? Vai ficar cicatriz grande?
A cirurgia por vídeo ginecológica é uma forma de operar a barriga por furinhos, sem um corte grande. Neste artigo, explico como ela funciona, quando pode ser indicada e como costuma ser a recuperação. Cada caso é avaliado individualmente, e este texto não substitui a consulta.
O que é cirurgia por vídeo?
Cirurgia por vídeo é o nome popular da laparoscopia. São a mesma coisa: quando o médico fala "laparoscopia", ele está falando da cirurgia por vídeo. O nome vem do fato de a operação ser acompanhada por uma câmera, que mostra as imagens em um monitor.
Na prática, a câmera fina e os instrumentos delicados entram na barriga por pequenos cortes. Assim, o médico enxerga o útero, as trompas e os ovários bem de perto.
Em vez de um corte grande na barriga (a cirurgia aberta, chamada de laparotomia), os cortes da cirurgia por vídeo costumam ter de 0,5 a 1 centímetro. Por isso ela faz parte das cirurgias minimamente invasivas.
Cirurgia por vídeo e histeroscopia são a mesma coisa?
Não, apesar de as duas usarem câmera e vídeo. A diferença está por onde a câmera entra:
- Na cirurgia por vídeo pela barriga (laparoscopia), a câmera entra por um pequeno corte no umbigo e olha o útero, as trompas e os ovários por fora.
- Na histeroscopia, a câmera fina entra pelo canal vaginal e vê o útero por dentro, sem cortes.
Leia mais no artigo sobre [histeroscopia](/artigos/histeroscopia-o-que-esperar-do-procedimento).
Como funciona a cirurgia por vídeo, passo a passo?
Cada cirurgia tem suas particularidades. Em geral, o processo segue estas etapas:
- Anestesia. A cirurgia por vídeo é feita com anestesia, em geral a geral, e você não sente nada durante o procedimento.
- Pequenos cortes. São feitos poucos cortes, geralmente de um a quatro, para a câmera e os instrumentos.
- Gás na barriga. Um gás seguro (gás carbônico) é colocado dentro da barriga para abrir espaço e permitir que o médico enxergue bem.
- A cirurgia em si. O médico trata o problema, como retirar um cisto, um nódulo ou tratar focos de endometriose.
- Fim do procedimento. O gás sai, os cortes são fechados com pontos pequenos e você vai para a recuperação.
Para quem a cirurgia ginecológica por vídeo é indicada?
Ela pode ajudar no diagnóstico e no tratamento de várias situações. Algumas das mais comuns:
- Endometriose (quando o tecido que reveste o útero por dentro cresce fora dele e pode causar dor e dificuldade para engravidar);
- Cistos nos ovários;
- Miomas (nódulos de músculo que crescem na parede do útero);
- Dor pélvica sem causa clara;
- Aderências (cicatrizes internas que "colam" os órgãos);
- Trompas com problemas, ou para a laqueadura (cirurgia que fecha as trompas);
- Retirada do útero (histerectomia), quando houver indicação.
Veja também o artigo sobre [miomas uterinos](/artigos/miomas-uterinos-sintomas-e-quando-buscar-tratamento).
A indicação depende dos seus sintomas, dos exames e do seu desejo de engravidar. Nem toda mulher com esses problemas precisa operar. Muitas vezes, o tratamento começa com remédios ou acompanhamento.
Quais são os benefícios da cirurgia por vídeo?
Estudos comparam a cirurgia por vídeo com a cirurgia aberta. Em geral, ela está associada a:
- Menos dor depois da cirurgia;
- Internação mais curta;
- Retorno mais rápido às atividades;
- Cicatrizes menores.
Uma revisão da Cochrane (um grupo que reúne e analisa muitos estudos) sobre cirurgia de tumores benignos do ovário encontrou menos complicações, menos dor e internação mais curta com a cirurgia por vídeo do que com a cirurgia aberta [1]. Outra revisão, sobre a retirada do útero, mostrou que as mulheres operadas por laparoscopia voltaram às atividades normais mais cedo do que as operadas por corte aberto. A diferença média foi de cerca de duas semanas, mas a qualidade dessa evidência é baixa [2].
Esses são resultados de grupos de mulheres em estudos. Eles não garantem que o mesmo vá acontecer com você.
Existem riscos na cirurgia por vídeo?
Toda cirurgia tem riscos, e a cirurgia por vídeo também. Os riscos incluem sangramento, infecção, lesão de órgãos vizinhos (como bexiga, ureter ou intestino) e reação à anestesia. A revisão sobre a retirada do útero encontrou mais lesões do trato urinário com a laparoscopia do que com a cirurgia aberta [2].
Às vezes, durante a operação, o médico precisa mudar para a cirurgia aberta por segurança. Esse assunto deve ser conversado com você antes, junto com as alternativas. A escolha da via de cirurgia depende do seu caso e deve ser decidida em conjunto com você, como orientam as sociedades médicas [3].
Como é a recuperação da cirurgia por vídeo?
A recuperação varia de uma mulher para outra. Depende do tipo de cirurgia, da sua saúde e do que foi feito. Por isso, o que segue é uma ideia geral, e as orientações do seu médico valem mais que qualquer texto.
Quanto tempo fico no hospital?
Muitas cirurgias por vídeo permitem alta no mesmo dia ou no dia seguinte, mas isso depende da cirurgia e da sua condição. Cirurgias maiores, como a retirada do útero, podem exigir mais tempo.
Vou sentir dor?
Sim, pode haver algum desconforto. Ele costuma ser menor que o da cirurgia aberta [1], mas varia. A dor é controlada com remédios combinados, para usar menos analgésicos fortes. Essa estratégia faz parte dos protocolos de recuperação acelerada (ERAS) usados em cirurgia ginecológica [4,5].
Por que dói o ombro depois?
O gás usado na cirurgia pode irritar o diafragma (músculo da respiração) e causar dor no ombro. Essa dor é comum depois da cirurgia por vídeo na barriga. Ela costuma melhorar com os dias, e existem formas de reduzi-la durante a operação [6]. Conte ao seu médico se a dor for forte.
Quando volto a comer e a andar?
Em geral, a recomendação é voltar a comer cedo e levantar da cama nas primeiras horas, com ajuda. Andar cedo ajuda a recuperação e diminui o risco de trombose (coágulo nas veias das pernas) [4,5].
Quando volto ao trabalho e à academia?
Costuma ser mais rápido que na cirurgia aberta, mas não existe prazo igual para todas. Quem faz trabalho de escritório geralmente volta antes de quem faz esforço físico. O prazo depende da cirurgia realizada, mas em geral fica em torno de 15 a 20 dias para voltar ao trabalho e aos exercícios. Exercícios fortes e peso devem esperar a liberação do médico, e o prazo do seu caso será dado na consulta de retorno.
Cuidados em casa
- Mantenha os curativos limpos e secos, como orientado;
- Caminhe um pouco todos os dias;
- Tome só os remédios receitados;
- Não coloque nada na vagina nem tenha relações até ser liberada.
Quando procurar um ginecologista?
Marque uma avaliação se você tem:
- Dor na barriga ou na pelve que não passa ou piora;
- Cólica forte que atrapalha o dia a dia;
- Menstruação muito intensa (veja o artigo sobre [menstruação intensa e cirurgia](/artigos/enstruacao-intensa-precisa-cirurgia));
- Dor na relação;
- Dificuldade para engravidar depois de um tempo tentando;
- Cisto, mioma ou endometriose já descobertos em exame de imagem;
- Sangramento depois da menopausa (leia sobre [sangramento pós-menopausa](/artigos/sangramento-pos-menopausa-por-que-nunca-deve-ser-ignorado));
- Pólipo no útero (leia sobre [pólipo endometrial](/artigos/polipo-endometrial-risco-para-cancer-histeroscopia)).
Após uma cirurgia, procure o médico ou um pronto atendimento se tiver febre, dor que piora, sangramento forte, vermelhidão ou secreção nos cortes, falta de ar, dor ou inchaço em uma perna, ou vômitos que não param.
Como é a avaliação antes da cirurgia por vídeo?
No consultório, o Dr. Murillo conversa sobre seus sintomas, faz o exame ginecológico e pede os exames necessários, como o ultrassom. Em alguns casos, a ressonância pode ajudar. Depois, ele explica as opções, os benefícios e os riscos.
Quando a cirurgia é uma opção, a cirurgia por vídeo é uma das técnicas, junto com a histeroscopia e outras vias. A escolha depende do seu caso. Nem toda condição pode ser tratada por vídeo, e o médico explicará por que indica cada caminho. Você também participa da decisão [3].
Perguntas frequentes
Cirurgia por vídeo ginecológica é uma cirurgia grande?
Depende do que será feito. Os cortes são pequenos, mas a cirurgia é feita dentro da barriga e com anestesia. Algumas são mais simples e outras mais complexas.
A cirurgia por vídeo deixa cicatriz?
Deixa marcas pequenas, que costumam ficar discretas. A aparência varia conforme a cicatrização de cada pessoa.
Quanto tempo dura a recuperação da cirurgia por vídeo?
Varia bastante. Em geral, é mais rápida que a da cirurgia aberta, mas depende da cirurgia realizada. Seu médico dará o prazo para o seu caso.
Posso engravidar depois?
Depende do motivo da cirurgia e do que foi feito. Algumas cirurgias não afetam a fertilidade, e outras sim. Converse sobre isso antes de operar.
A cirurgia por vídeo dói?
Durante a cirurgia, você está anestesiada. Depois, pode haver dor leve a moderada, incluindo dor no ombro, que costuma melhorar com os dias e com remédios.
Quando posso ter relações sexuais?
Só após a liberação do médico, porque o prazo depende da cirurgia feita. Quando é preciso dar pontos no fundo da vagina, como na retirada do útero (histerectomia), a volta às relações sexuais costuma ser mais tarde do que nas cirurgias que não precisam desses pontos.
A histeroscopia também é cirurgia por vídeo?
Também usa vídeo, mas por outro caminho. Na cirurgia por vídeo pela barriga (laparoscopia), a câmera entra por um pequeno corte no umbigo. Na histeroscopia, a câmera entra pelo canal vaginal, sem cortes, e mostra o útero por dentro. Cada uma serve para situações diferentes, e o médico indica a mais adequada ao seu caso.
Conclusão
A cirurgia por vídeo ginecológica permite operar por cortes pequenos e, em geral, está ligada a menos dor e recuperação mais rápida do que a cirurgia aberta. Ela tem riscos e nem sempre é a indicada. Só uma avaliação individual diz qual caminho faz sentido para você.
Se você tem sintomas ou uma indicação de cirurgia e quer entender suas opções, agende uma avaliação com o Dr. Murillo Santos em Maringá.
*Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Não use esta informação para se diagnosticar ou se medicar.*
Dr. Murillo Santos | Ginecologia, Obstetrícia e Endoscopia Ginecológica | CRM-PR 43.086 | RQE 32.072 e 34.548 | Maringá, PR
Referências
- Medeiros LRF, Rosa DD, Bozzetti MC, Fachel JMG, Furness S, Garry R, et al. Laparoscopy versus laparotomy for benign ovarian tumour. Cochrane Database Syst Rev. 2009;(2):CD004751. doi:10.1002/14651858.CD004751.pub3. https://doi.org/10.1002/14651858.CD004751.pub3
- Pickett CM, Seeratan DD, Mol BWJ, Nieboer TE, Johnson N, Bonestroo T, et al. Surgical approach to hysterectomy for benign gynaecological disease. Cochrane Database Syst Rev. 2023;8(8):CD003677. doi:10.1002/14651858.CD003677.pub6. PMID 37642285. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37642285/
- American College of Obstetricians and Gynecologists. Committee Opinion No. 701: Choosing the route of hysterectomy for benign disease. Obstet Gynecol. 2017;129(6):e155-9. doi:10.1097/AOG.0000000000002112. PMID 28538495. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28538495/
- Santiago AE, Lopes da Silva Filho A, Cândido EB, Ribeiro PA, Rosa e Silva JC, Primo WQSP, et al. Perioperative management in gynecological surgery based on the ERAS program (FEBRASGO Position Statement). Rev Bras Ginecol Obstet. 2022;44(2):202-10. doi:10.1055/s-0042-1743401. PMID 35213920. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9948094/
- Nelson G, Bakkum-Gamez J, Kalogera E, et al. Guidelines for perioperative care in gynecologic/oncology: Enhanced Recovery After Surgery (ERAS) Society recommendations, 2019 update. Int J Gynecol Cancer. 2019;29(4):651-68. doi:10.1136/ijgc-2019-000356. PMID 30877144.
- Kaloo P, Armstrong S, Kaloo C, Jordan V. Interventions to reduce shoulder pain following gynaecological laparoscopic procedures. Cochrane Database Syst Rev. 2019;1(1):CD011101. doi:10.1002/14651858.CD011101.pub2. PMID 30699235. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30699235/
